Pesquisa com mais de 640 mil pessoas em 117 países revela que a religiosidade varia muito mais entre sociedades do que valores como família, trabalho ou política

Um dos maiores levantamentos já feitos sobre valores culturais no mundo mostra que a religião é o aspecto que mais diferencia as sociedades globais. A conclusão vem de um estudo publicado na Nature Communications, que analisou respostas de 640.110 pessoas em 117 países, representando 89% da população mundial..
De acordo com os pesquisadores, as diferenças entre países no peso dado à religião são até dez vezes maiores do que as variações observadas em valores como família, trabalho, lazer ou política. O resultado se manteve estável ao longo de quase 100 anos de gerações analisadas, indicando que a religião continua sendo um dos principais marcadores culturais do planeta.
“Mesmo em um mundo cada vez mais globalizado, a forma como as pessoas se relacionam com a religião continua profundamente desigual entre os países”, afirma Jeanet Sinding Bentzen, economista da Universidade de Copenhague e uma das autoras da pesquisa..
Diferenças que atravessam fronteiras — e países por dentro
Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados do World Values Survey e do European Values Study, coletados entre 1981 e 2022. Eles aplicaram um indicador chamado Índice de Fixação Cultural, que mede o quanto um valor varia entre grupos sociais.
Os números são expressivos: a importância atribuída à religião na vida pessoal apresenta uma diversidade 3,4 vezes maior do que o segundo valor mais divergente (lazer) e 9,7 vezes maior do que a família, tradicionalmente vista como um valor universal.
O estudo também mostrou que essa diversidade não ocorre apenas entre países, mas dentro deles. Ao comparar 2.333 regiões subnacionais, os pesquisadores observaram que a religião continua sendo o fator cultural com maior variação, mesmo quando se eliminam diferenças nacionais como leis, economia e instituições.
“Isso indica que não se trata apenas de diferenças entre países ricos e pobres ou entre continentes, mas de escolhas culturais profundamente enraizadas nas sociedades”, explica Ara Norenzayan, professor de psicologia da Universidade da Colúmbia Britânica religiao.
Mais do que fé: intensidade religiosa pesa mais que a religião em si
Outro achado importante é que dois terços da diversidade religiosa global não estão ligados à religião professada, mas sim à intensidade da religiosidade. Em outras palavras, pessoas da mesma tradição religiosa podem ser muito diferentes entre si no quanto a fé influencia suas decisões, valores e estilo de vida.
Segundo o estudo, quando as diferenças entre denominações religiosas são retiradas da análise, a maior parte da variação permanece.
“Ser cristão, muçulmano ou não ter religião explica apenas parte da história. O que realmente diferencia as sociedades é o quanto a religião importa no dia a dia das pessoas”.
Anne Sofie Beck Knudsen, coautora do trabalho.
Impactos sociais e políticos
A relevância da religião vai além da esfera privada. Pesquisas anteriores já associaram a religiosidade a fatores como educação, renda, bem-estar, políticas públicas e comportamento político. Para os autores, compreender essa diversidade é essencial para entender conflitos culturais, processos de secularização e até decisões governamentais.
Apesar disso, os pesquisadores fazem um alerta: outros fatores culturais — como língua e identidade nacional — não foram totalmente explorados e podem também desempenhar papéis relevantes.
Ainda assim, a conclusão é clara: em um mundo diverso, a religião segue como a linha cultural mais profunda que separa sociedades — e, muitas vezes, pessoas que vivem no mesmo país.
Mais informação: Bentzen, JS, Knudsen, ASB, Sperling, LL et al. Diversidade cultural da religião em 117 países. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67671-y. DOI https://doi.org/10.1038/s41467-025-67671-y